ColunistasPadre Joaquim Jocélio

Tempo de assumir a Esperança que move

Podcast Outro Papo de Igreja, do Serviço Teológico Pastoral

Além de toda a inspiração bíblia, cada Jubileu também tem um tema específico. O deste ano é Peregrinos da Esperança. Aqui está expresso um sinal muito comum dos Jubileus, ou seja, as peregrinações, mas também uma questão fundamental para a vida cristã que é a esperança. Mas o peregrinar jubilar não é apenas uma caminhada religiosa para alguns lugares importantes da fé. Ele expressa a própria natureza da Igreja, que não é estática, mas dinâmica, sempre peregrinando, sempre em saída de suas próprias seguranças em direção a todas as periferias do mundo. E o que move essa constante saída é a esperança do Reino de Deus, presente, embora ainda não em plenitude.

Quando olhamos para a Escritura, percebemos que “pelo seu conteúdo, a Bíblia é o anúncio do futuro. Pela sua exigência, ela é apelo para a esperança” (José Comblin). Portanto, a esperança é questão fundamental na bíblia. Foi na esperança que caminhou Abraão saindo de Ur dos Caldeus até Canaã; foi na esperança que o povo de Israel saiu da escravidão no Egito e caminhou rumo a terra prometida; foi na esperança que insistiram muitos profetas, mesmo quando não havia muitos sinais para isso. Foi a esperança do Reino que Jesus anunciou e foi na esperança da vida que vence a morte que caminharam as primeiras comunidades cristãs. 

Por isso, a esperança por si mesma está ligada a ideia de caminhada, de peregrinação. Pois a verdadeira esperança não paralisa, não nos faz cruzar os braços e esperar as coisas caírem do céu. Ela nos põe em movimento. Nesse sentido, o pensador sul-coreano Byung-Chul Han afirma que “somente na esperança estamos a caminho. Ela nos dá sentido e orientação. O medo, por outro lado, torna impossível a marcha”. A esperança não é tudo, mas é um aspecto indispensável da vida. “Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo”, por outro lado, “prescindir da esperança na luta para melhorar o mundo, como se a luta se pudesse reduzir a atos calculados apenas, à pura cientificidade, é frívola ilusão” (Paulo Freire).

Nossa missão como seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré é a mesma do mestre: “tornar o Reino de Deus presente no mundo” (EG 176). Isto é, buscar transformar esse mundo para que ele seja como Deus quer; combater tudo aquilo que vai contra a vontade do Senhor para que ele possa de fato reinar entre nós; e “na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos” (EG 180). Para vivermos nossa missão, é fundamental a esperança, pois ela que nos move. Isso porque “Cristo, para a esperança, não é só o consolo em meio à dor, mas também o protesto da promessa de Deus contra o sofrimento… Quem espera em Cristo não pode mais se contentar com a realidade dada, mas começa a sofrer devido ela, começa a contradizê-la” (Jürgen Moltmann). 

A esperança que vem da vida doada de Jesus pelo Reino, que vem de sua vitória sobre o pecado e a morte não nos tranca nas capelas ou em nossos quartos rezando sozinhos. Mas nos leva a contradizer esse mundo de tanta dor, violência, preconceito, desigualdade, egoísmo e morte. Tal esperança nos faz dizer que nada disso é vontade de Deus. A esperança cristã não é conformista, é revolucionária. É um protesto contra o mal. Por isso, já nos alertou o papa Francisco de que “a esperança é incompatível com a vida tranquila dos que não levantam a voz contra o mal e contra as injustiças cometidas diretamente sobre os mais pobres. Pelo contrário, a esperança cristã, ao mesmo tempo que nos convida a esperar pacientemente que o Reino germine e cresça, exige de nós a audácia de antecipar hoje essa promessa, através da nossa responsabilidade, mas não só, através também da nossa compaixão”. Nesse sentido, em sua autobiografia, que tem como título, justamente, ESPERANÇA, Francisco se questiona: “Então a esperança só começa quando há o ‘nós’? Não, ela já começou com o ‘você’. Quando há o ‘nós’, começa uma revolução”.

É hora de começarmos essa revolução. Isso passa por organizar a esperança. Identificar e potencializar os diversos sinais de esperança que já existem e ver como constituir novos sinais. O papa Francisco na sua bula de proclamação do Jubileu mencionou oito realidades que são sinais de esperança ou demandam que sejamos para elas esses sinais: Paz, abertura à vida, presidiários, doentes, jovens, migrantes, idosos e pobres (SNC 8-15). Mas existem muitas outras realidades que demandam esperança e/ou são sinais de esperança. Isso porque tantas realidades passam por essa ambiguidade: ao mesmo tempo que são sofridas, trazem em si um potencial de esperança. Os catadores e catadoras de materiais recicláveis padecem muitas dificuldades, mas ao se organizarem e levantarem voz recordando à sociedade que são gente, são filhos de Deus e exigem ter sua dignidade respeitada, isso é sinal de esperança. Numa sociedade cada vez mais individualista, fruto da lógica neoliberal, encontrarmos comunidades que se reúnem semanalmente em círculos bíblicos para rezar, ouvir a Palavra e debater a vida; isso é sinal de esperança. Grupos organizados para defender seus direitos, como o movimento REVOGA JÁ que combate a lei que permitiu pulverização aérea por drone no Estado do Ceará; isso é sinal de esperança. E tantas situações mais que somos convidados a perceber e potencializar. 

Paulo Freire falava em “inédito viável”, ou seja, perceber aquilo que é possível e ainda não foi feito. Trata-se, em suas palavras, de “desvelar as possibilidades, não importam os obstáculos, para a esperança, sem a qual pouco podemos fazer”. Não podemos tudo, mas podemos muito dentro das possibilidades que temos. Precisamos desvelá-las. Sejamos peregrinos da esperança, inconformados com esse mundo. Caminhemos para fazer o Reino acontecer, construindo a sociedade que Deus quer. Façamos nosso o sonho de Deus. Caminhemos, pois “a esperança não decepciona” (Rm 5,5).

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